TBT Sertões: a estreia de Rubens Barrichello no maior rally das Américas
A quinta-feira é dia de TBT Sertões, para resgatar histórias interessantes e algumas vezes pouco conhecidas das três verticais da principal plataforma de esportes de aventura do país. Nessa semana, a volta no tempo vem acompanhada de lama e poeira e envolve um dos principais personagens da história recente do automobilismo brasileiro. Mais um representante de uma dinastia de pilotos formados no asfalto e nos autódromos que resolveu encarar o desafio do maior rally das Américas – nomes como os de Ingo Hoffmann; do saudoso Wilsinho Fittipaldi; de Nelsinho Piquet e Felipe Fraga.
Como Ingo, Wilsinho e Nelsinho, Rubens Barrichello chegou à Fórmula 1. O paulistano marcou sua passagem com números de respeito: em 19 temporadas, disputou 326 GPs, com 11 vitórias, 14 poles e, por duas vezes (2002 e 2004) foi vice-campeão mundial. Ao deixar a categoria, partiu em busca de novas experiências que o levaram à Indy e a à Stock Car. E também ao Sertões.
Rubinho aceitou o convite para disputar três etapas da edição 2020, no comando de um Buggy Giaffone V8. Era momento da pandemia de Covid 19 e houve uma série de ajustes para permitir a realização do rally em condições seguras para todos os envolvidos. Sua aventura teve início em Brasília (a “Bolha 2” de um percurso em que as cidades não foram anunciadas com antecedência e o público em geral não teve acesso às Vilas Sertões).
Maratonas
Barrichello chegou à capital federal diretamente da Argentina, onde participou mais cedo de uma etapa do Super TC 2000. “Gratidão é a palavra certa, porque, um cara na minha idade, que correu na Argentina e conseguiu fazer tudo organizado para chegar, quase 23h para sentar no carro, ver se o banco está bom, como é que está tudo, para estar às 6h na prova, é por muito amor. Não posso ter pretensão de achar que, porque eu corri de alguma coisa, vou andar bem no Sertões. Para que ele me abrace, eu preciso respeitá-lo. Meu pai sempre me falava para entrar no mar com respeito, e é esse o espírito”, comentou.
Se um dos novos desafios era se acostumar à parceria com um navegador, Rubinho teve a seu lado um craque na função: Edu Bampi. No primeiro dos três dias de participação, a dupla encarou o percurso entre Brasília e Minaçu (GO), perna inicial da etapa Maratona. As chuvas do período (o rally foi adiado para novembro) encheram os caminhos de lama e transformaram a especial em uma das mais exigentes da história do Sertões.
Nada que intimidasse o talentoso piloto. Apesar de um pneu furado e da necessidade de manutenção em uma correia do motor, Barrichello e Bampi conquistaram a 13ª posição geral, sexta na categoria Open.
“Quando eu era pequeno, ía para Interlagos e minha mãe falava para não brincar na lama. Eu brinquei, e me diverti muito. Foi muito legal. Eu achava que a gente vinha lento e de repente estava ultrapassando outros carros, até aprendi a usar a buzina (o Stella, dispositivo para avisar a aproximação a quem vem à frente). E com a tração 4×2 do buggy, muitos pontos estavam bem difíceis. Muitas vezes vinha abanando a traseira do carro nos galhos, havia muitos pontos estreitos. Em alguns pontos vi gente que nos reconheceu e fez a maior festa quando passamos. Estou bastante cansado, mas muito feliz. Quando você vê todo mundo falando que foi uma etapa difícil, isso mostra que fizemos um trabalho bacana”, resumiu.
A etapa seguinte acabou cancelada justamente devido à chuva. A participação chegou ao fim com um nono lugar (mesmo com problemas no câmbio) no trecho entre Campos Belos (GO) e Palmas (TO). E um saldo mais que positivo. “O rally tem muito de inesperado, e o inesperado traz uma adrenalina que é o que eu mais curto. Teve um momento em que a gente estava muito bem, muito entrosado, o motor começou a falhar com 40km de especial, mas alguma coisa me dizia ‘respeita a natureza que a gente vai chegar’. Eu estava num limite gostoso, me divertindo e fui me adaptando aos problemas, e isso foi muito legal. Saio daqui orgulhoso. Já levei um top-10 em minha primeira visita”.
