TBT Sertões: no maior do mundo, façanha inédita de piloto/navegador

Muita gente se pergunta qual a função de um navegador nos ralis. A função surgiu no automobilismo nos anos 1950 do século passado em uma prova de velocidade no asfalto (a lendária Mille Miglia, na Itália), quando Stirling Moss contou, a seu lado, com o jornalista Denis Jenkinson.

Com suas anotações prévias, ele ajudou o astro britânico a antecipar o que vinha pela frente e, com isso, a andar bem mais rápido para vencer o desafio. Até então, o chamado copiloto era, na verdade, um mecânico pronto a atuar em caso de necessidade.

No Rally Raid, ao contrário do rally de velocidade, o percurso não é conhecido antecipadamente e não há levantamento prévio. A dupla recebe a planilha minutos antes, tempo suficiente para que o navegador marque os principais pontos de atenção.

As referências – direções de curva, extensões de retas, mudanças de piso, obstáculos –; vão sendo passadas ao longo do percurso. Cabe a quem vai sentado no assento da direita ainda monitorar os sistemas do veículo.

Mas, e se alguém resolvesse encarar milhares de quilômetros sobre quatro rodas fazendo os dois papeis? Como estamos em uma quinta-feira e é dia de TBT Sertões, a gente mostra que isso não só é possível, como aconteceu em uma edição histórica do maior rally das Américas.

Voo solo

A primeira tentativa de encarar o Sertões “solo” entre os carros aconteceu na edição 2008, com Ulysses Bertholdo e o protótipo S10 da equipe Off Runner (então representante oficial da Chevrolet), que sequer tinha espaço para um segundo tripulante. Problemas mecânicos impediram que eles concluíssem o desafio.

A ideia foi retomada em 2022, quando o Sertões foi também o maior do mundo em especiais cronometradas. Desta vez por alguém que, como navegador, havia vencido três vezes ao lado de Guilherme Spinelli. Youssef Haddad resolveu encarar os mais de 7 mil quilômetros e 15 dias de prova entre Foz do Iguaçu e Salinópolis sozinho, a bordo de uma Mitsubishi Triton Sport R.

A missão exigiu alguns ajustes no equipamento. A aparelhagem de navegação foi deslocada para o meio do painel, próximo ao volante, e a planilha colocada em um sistema de rolo, semelhante ao das motos.

O objetivo era chegar ao fim, mas a façanha inédita veio com algo ainda melhor: a décima posição geral entre os carros, superando máquinas de categorias superiores. “Os últimos dois dias foram os mais difíceis porque eu não tinha mais como melhorar minha posição nem piorar, eu precisava levar o carro até o final todo dia. Essa é a pior e mais desagradável situação, porque você corre sem correr. Eu prefiro fazer as especiais realmente disputando. A experiência ajudou muito, tendo cabeça, esquecendo os adversários para completar dia a dia. O top-10 é muito mais que a gente poderia almejar em um rally como o Sertões.”

Youssef falou ainda sobre a satisfação de superar um desafio que começou muito antes da largada. “Ficaram várias lições e a primeira delas é ir atrás do seu sonho, lutar e convencer as pessoas de que é possível. Essa foi a parte mais difícil. Bati em um monte de portas, recebi muitos nãos, mas na tentativa e erro, encontrei pessoas que acreditaram no meu sonho e a resposta está aí. É possível fazer e eu sabia tanto da capacidade do carro quanto da minha.”